O que é informação?
Manuais e diretrizes de pesquisa sobre metodologia científica classificam as pesquisas de acordo com o estado de conhecimento de um fenômeno, a saber: pesquisa exploratória, quando o fenômeno a ser investigado é desconhecido ou quase desconhecido; pesquisa descritiva, quando o fenômeno a ser investigado é parcialmente conhecido, mas suas variáveis ou propriedades precisam, pelo menos, ser descritas; e pesquisa explicativa ou preditiva, quando o fenômeno a ser investigado é conhecido, suas variáveis são conhecidas e é possível fazer previsões sobre seu comportamento futuro (Selltiz, Wrightsman, Cook 1976). As definições de informação apresentadas por autores da Ciência da Informação assemelham-se mais à pesquisa exploratória, concentrando-se em aspectos específicos e parciais. Talvez seja por isso que essas definições pareçam contraditórias e irreconciliáveis no contexto da trajetória epistêmica da Ciência da Informação.
De qualquer modo, a informação é um fenômeno complexo. Ao analisá-la sob a ótica da Teoria dos Níveis Integrativos (Feibleman 1954), Gnoli (2018) afirma que os fenômenos informacionais abrangem os níveis físico, cognitivo e social da realidade. Uma questão crucial — e um pré-requisito para compreender o objeto da Ciência da Informação — é o papel biológico, evolutivo e social desempenhado pela linguagem na articulação e coordenação da vida social, possibilitando a cooperação social e o compartilhamento de experiências e conhecimentos (Knight, Studdert-Kennedy, Hurford 2000). Segundo Dunbar (1993), o tamanho dos grupos humanos depende dos mecanismos de articulação e coordenação proporcionados pela linguagem. A necessidade de articular e coordenar a vida social persiste nas complexas sociedades globais de hoje, assim como ocorria nos primórdios do surgimento da espécie humana (Dunbar 1993), (Boyd 2009). Como a “higienização social” (social grooming) presencial é limitada nas sociedades contemporâneas complexas, a articulação e a coordenação sociais são alcançadas de forma indireta, por meio de mensagens, registros e documentos. As raízes etimológicas do termo “informação” remontam ao latim in forma, que significa dar forma, educar, formar; trata-se, portanto, de um processo, segundo o Online Etymology Dictionary. Os seres humanos possuem alteridade; eles se veem como distintos do mundo. Nossa percepção — por meio de nossas ações no mundo, nossas reações e nossos sentidos, ou seja, nossas experiências como seres vivos — é a porta de entrada para estímulos provenientes do mundo (incluindo nosso mundo interior) que, quando repetidos, são sintetizados no que Piaget (1983) denomina esquemas. Tais esquemas são utilizados para compreender esquemas novos e desconhecidos, numa tentativa de encaixá-los naqueles que já conhecemos. Trata-se de um conhecimento individual, derivado diretamente de nossa percepção. Segundo Aldo Barreto(1995), informação é aquilo que é capaz de alterar o estado cognitivo — o conhecimento ou a estrutura mental — de um indivíduo ou grupo.
A aquisição desse conhecimento, esse processo de auto-informação, é descrita por Peirce (1994) por meio de suas três categorias de percepção: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade. A Primeiridade é um estímulo inevitável do mundo que se impõe à nossa percepção; a Secundidade é a nossa reação a esse estímulo, na tentativa de compreendê-lo; a Terceiridade, por fim, é a nossa compreensão e (re)conhecimento (ainda que parciais) do estímulo, enquadrando-o em nossos esquemas sociais — como conceito e, na linguagem, como termo. Tais esquemas individuais — de experiência e conhecimento — assemelham-se aos de nossos pares, visto que estes possuem um aparato perceptivo-sensorial-biológico semelhante ao nosso (Saab, Riss 2011). Esse conhecimento pode ser compartilhado com nossos pares por meio da imitação de comportamento, da socialização, da educação e do uso de uma linguagem comum. Essa dualidade entre experiências individuais e coletivas é descrita pelos autores como a construção de sentido (sense-making, individual) e a construção de significado (meaning-making, coletiva e social). Segundo Russell (1910)], podemos adquirir conhecimento vivenciando diretamente o mundo (conforme descrito anteriormente) ou por meio de uma descrição desse mundo. Uma descrição é algo que substitui a experiência direta do mundo; é um signo de algo. Esse processo também é descrito por Peirce (1994), que o denominou semiose: algo (um signo) representa, ocupa o lugar de ou substitui um objeto, gerando um interpretante — uma interpretação possível — que depende do receptor do signo e de seu conhecimento prévio (o que Peirce chama de experiência colateral) sobre esse objeto em sua mente. Esse processo é o que Santaella e Vieira (2008) denominam epistemologia semiótica. O papel representacional dos objetos também é estudado no âmbito da análise ontológica, isto é, a natureza daquilo sobre o que algo trata (aboutness) (Ceusters, Smith 2015). Se aplicarmos essa análise, podemos considerar que o ato de informar-se (um processo) depende de algo que é informativo (uma coisa). Uma vez informado, o indivíduo detém um conhecimento que pode ser evocado e aplicado na tomada de decisões e em ações fundamentadas, bem como compartilhado com seus pares. Todas essas entidades estão intrínseca e irremediavelmente interligadas. A compreensão, o entendimento, a conceituação e a comunicação só podem ocorrer em um contexto social, no qual os sentidos das coisas no mundo — seus significados — são socializados e compartilhados. A partri da Semiótica de Peirce, as diferentes e “históricas” abordagens da Ciência da Informação podem ser integradas (PEREIRA 2022).
Referencias
BARRETO, Aldo de Albuquerque. A questão da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO (ENANCIB), 2., 1995, Valinhos. Anais […]. Valinhos: ANCIB, 1995.
BOYD, Robert; RICHERSON, Peter J. Culture and the evolution of human cooperation. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 364, n. 1533, p. 3281-3288, 2009.
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DUNBAR, Robin I. M. Coevolution of neocortical size, group size and language in humans. Behavioral and Brain Sciences, v. 16, n. 4, p. 681-694, 1993.
FEIBLEMAN, James K. Theory of integrative levels. The British Journal for the Philosophy of Science, v. 5, n. 17, p. 59-66, 1954.
GNOLI, Claudio. Mentefacts as a missing level in theory of information science. Journal of Documentation, London, v. 74, n. 6, p. 1226-1242, 2018.
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KNIGHT, Chris; STUDDERT-KENNEDY, Michael; HURFORD, James R. Language: a Darwinian adaptation? In: KNIGHT, Chris; STUDDERT-KENNEDY, Michael; HURFORD, James R. (ed.). The evolutionary emergence of language: social functions and the origins of linguistic form. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. p. 1-15.
PEIRCE, Charles Sanders. Collected papers of Charles Sanders Peirce. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1994. Disponível em: https://colorysemiotica.wordpress.com/wp-content/uploads/2014/08/peirce-collectedpapers.pdf. Acesso em: 5 jul. 2026.
PEREIRA, D. V.. A semiótica peirceana como teoria capaz de integrar abordagens teóricas da
Ciência da Informação. Ph.D. thesis, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação,
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PIAGET, Jean. A epistemologia genética. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
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SANTAELLA, Lucia; VIEIRA, Jorge Albuquerque. Metaciência como guia da pesquisa: uma proposta semiótica e sistêmica. São Paulo: Mérito, 2008.
SELLTIZ, Claire; WRIGHTSMAN, Lawrence S.; COOK, Stuart W. Research methods in social relations. 3. ed. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1976.
